Envelhecer com autonomia: o que ninguém explica às mulheres
Mulheres no Brasil vivem mais do que os homens. A expectativa de vida feminina já ultrapassa os 80 anos em diversos recortes estatísticos, o que costuma ser apresentado como uma conquista. Mas viver mais não significa, necessariamente, viver com autonomia.
Mulheres no Brasil vivem mais do que os homens. A expectativa de vida feminina já ultrapassa os 80 anos em diversos recortes estatísticos, o que costuma ser apresentado como uma conquista. Mas viver mais não significa, necessariamente, viver com autonomia. Para muitas mulheres, a velhice chega acompanhada de perdas silenciosas: renda menor, saúde fragilizada, invisibilidade social e dependência crescente. Esses fatores raramente aparecem nas conversas sobre envelhecimento.
O problema não está apenas na idade em si, mas no acúmulo de desigualdades ao longo da vida.
O envelhecimento feminino e seus desafios invisíveis
Apesar da maior longevidade, mulheres relatam pior qualidade de saúde na velhice quando comparadas aos homens. A menopausa marca uma virada importante, aumentando riscos cardiovasculares, osteoporose e dores crônicas, muitas vezes tratadas como “normais da idade”. Soma-se a isso uma vida inteira de dupla jornada, salários mais baixos e menor acúmulo de patrimônio, o que reduz escolhas na terceira idade.
Há ainda o fator da invisibilidade social. Muitas mulheres relatam uma sensação abrupta de apagamento: deixam de ser vistas, ouvidas e consideradas relevantes. O fim do assédio, frequentemente celebrado como alívio, também revela uma sociedade que só reconhecia essas mulheres enquanto jovens. O etarismo agrava esse cenário e afeta de forma mais intensa mulheres negras e pobres, que enfrentam preconceitos acumulados de gênero, raça e classe.
Esses elementos não surgem de uma vez, mas se acumulam lentamente, corroendo a autonomia antes mesmo que ela seja percebida como um problema.
Pressões sociais que não costumam ser nomeadas
Desde cedo, mulheres são ensinadas a associar valor pessoal à juventude, à aparência e à capacidade de cuidar dos outros. Envelhecer, nesse contexto, é frequentemente interpretado como perda de feminilidade e utilidade social. Simone de Beauvoir já observava que o envelhecimento feminino não é apenas biológico, mas também imposto pelo olhar do outro.
Na prática, isso significa que muitas mulheres passam a ser tratadas como “velhas” muito antes de se sentirem assim. Enquanto homens mais velhos mantêm legitimidade social e afetiva, mulheres são empurradas para papéis de “tia” ou “avó”, mesmo quando ainda estão ativas, produtivas e desejantes. Essa assimetria impacta autoestima, vida afetiva e disposição para ocupar espaços públicos.
O que raramente se diz é que autonomia na velhice não nasce do reconhecimento externo, mas da construção de redes entre pares. Amizades, grupos de convivência e vínculos horizontais tornam-se mais importantes do que a validação baseada em aparência ou juventude.
Autonomia exige preparo antes da velhice
Manter independência não é algo que se decide aos 70 anos. Estudos mostram que muitas mulheres começam a ajustar hábitos ainda na meia-idade, buscando preservar mobilidade, saúde mental e energia. Exercícios regulares, cuidado com o sono, alimentação adequada e acompanhamento médico consistente fazem diferença real na capacidade de envelhecer sem dependência.
A socialização também é central. Participar de atividades em grupo, viagens, cursos ou encontros regulares fortalece autoestima e reduz o risco de isolamento. Mulheres com redes sociais ativas tendem a adiar ou evitar a necessidade de cuidadores, mantendo maior controle sobre a própria rotina.
Esse conjunto de práticas se aproxima do conceito de “envelhecimento ativo”, defendido pela Organização Mundial da Saúde, que prioriza funcionalidade, autonomia e participação social, e não apenas ausência de doença.
Mitos persistentes sobre envelhecer bem
Um dos mitos mais comuns é o de que envelhecer com autonomia depende apenas de genética. Embora fatores hereditários tenham peso, perdas cognitivas, limitações físicas severas e dependência precoce não são inevitáveis. Muitas dessas condições podem ser prevenidas ou retardadas com intervenções feitas antes dos 60 anos.
Outro mito é o de que cuidar demais protege. Famílias excessivamente protetoras, ao tentar poupar mulheres idosas de riscos, acabam limitando sua socialização e capacidade de decisão. Em contraste, amizades, projetos pessoais e até a convivência com animais de estimação têm efeito positivo comprovado sobre vitalidade e saúde mental.
Relatos de mulheres mais velhas, inclusive de feministas, mostram que o envelhecimento pode trazer amadurecimento emocional e liberdade para recusar padrões estéticos violentos. O foco se desloca da aparência para o bem-estar real, algo que raramente é apresentado como ganho social.
Envelhecer com autonomia é questão estrutural
Falar de autonomia feminina na velhice não é falar apenas de escolhas individuais, mas de estruturas sociais. Desigualdade salarial, sobrecarga de cuidado, etarismo e racismo produzem efeitos cumulativos que aparecem com força justamente quando o corpo envelhece.
Reconhecer esses fatores é o primeiro passo para quebrar o silêncio em torno do tema. Envelhecer com autonomia não deveria ser privilégio de poucas, mas resultado de políticas públicas, redes sociais sólidas e mudança cultural. O que hoje quase ninguém explica às mulheres precisa, urgentemente, entrar no centro do debate.
Fontes
Pepsic/BVS Saúde; Geledés – Instituto da Mulher Negra; IBGE; Organização Mundial da Saúde; Revista AnaMaria; CNN Brasil; estudos acadêmicos sobre envelhecimento feminino publicados até 2025.