Por que trabalhar mais horas raramente gera melhores resultados
A associação entre longas jornadas de trabalho e bons resultados ainda é profundamente enraizada na cultura profissional. Em muitos ambientes, sair tarde do escritório ou acumular horas extras continua sendo interpretado como sinal de comprometimento e eficiência.
A associação entre longas jornadas de trabalho e bons resultados ainda é profundamente enraizada na cultura profissional. Em muitos ambientes, sair tarde do escritório ou acumular horas extras continua sendo interpretado como sinal de comprometimento e eficiência. No entanto, evidências acumuladas ao longo das últimas décadas indicam que essa relação é, na melhor das hipóteses, fraca — e frequentemente inversa.
Estudos sobre produtividade mostram que o desempenho humano não cresce indefinidamente com o aumento do tempo de trabalho. Uma pesquisa conduzida por economistas da Universidade de Stanford, analisando trabalhadores em diferentes setores, observou que a produtividade por hora começa a cair de forma perceptível quando a jornada semanal ultrapassa aproximadamente 50 horas. Acima desse patamar, o volume total produzido tende a se estabilizar, e em alguns casos chega a diminuir. Isso significa que trabalhar mais não implica, necessariamente, entregar mais.
Esse limite está diretamente relacionado à forma como o cérebro humano funciona. Atividades profissionais modernas exigem atenção sustentada, tomada de decisão, memória e criatividade — capacidades altamente sensíveis à fadiga. À medida que as horas se acumulam, o cansaço mental compromete essas funções, aumentando a probabilidade de erros, retrabalho e decisões mal avaliadas. O resultado é um paradoxo comum em ambientes de alta carga horária: mais tempo gasto para produzir resultados de qualidade inferior.
Outro fator frequentemente ignorado é o impacto da falta de recuperação. Jornadas prolongadas reduzem o tempo disponível para descanso físico e mental, afetando o desempenho não apenas no mesmo dia, mas nos dias seguintes. Pesquisas em saúde ocupacional mostram que a privação crônica de descanso está associada à queda progressiva de concentração, redução da capacidade de aprendizado e aumento do estresse. Com o tempo, esse desgaste se traduz em perda de eficiência sustentada.
Há também um componente cultural que reforça o problema. Em muitas organizações, horas trabalhadas funcionam como um indicador informal de valor profissional. Isso incentiva comportamentos voltados à visibilidade, como permanecer online ou disponível, em vez de priorizar entregas objetivas. Especialistas em gestão descrevem esse fenômeno como uma cultura de “ocupação”, na qual a aparência de esforço substitui a avaliação real de resultados. Nesse contexto, estender a jornada serve mais para atender expectativas implícitas do que para melhorar o desempenho.
Os efeitos do excesso de trabalho não se limitam à produtividade. Organizações como a Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho já apontaram associações entre longas jornadas frequentes e maior risco de problemas de saúde, incluindo distúrbios do sono, ansiedade e doenças cardiovasculares. Esses impactos retornam às empresas na forma de absenteísmo, rotatividade e queda de engajamento, criando custos invisíveis que raramente entram no cálculo das horas extras.
Curiosamente, experiências que reduzem ou reorganizam o tempo de trabalho ajudam a reforçar essa conclusão. Testes com semanas mais curtas ou maior flexibilidade de horários, realizados em diferentes países, indicam que a limitação do tempo disponível tende a aumentar o foco e a clareza de prioridades. Em muitos casos, a produtividade se mantém estável ou melhora, enquanto o bem-estar dos profissionais aumenta de forma consistente.
No fundo, a questão central não é o número de horas dedicadas, mas a qualidade do tempo utilizado. Trabalhar mais horas costuma ser uma resposta simples para problemas complexos, como má organização, processos ineficientes ou expectativas desalinhadas. A evidência disponível sugere que resultados melhores e mais duradouros estão mais associados a foco, recuperação adequada e gestão inteligente do trabalho do que à simples extensão da jornada.
Em um mercado cada vez mais baseado em atividades cognitivas, insistir na lógica do esforço bruto pode ser menos um sinal de dedicação e mais um indicativo de um modelo de trabalho que já não corresponde à realidade.
– John Pencavel (Stanford University) – estudos sobre produtividade e horas trabalhadas, especialmente o paper “The Productivity of Working Hours”, que mostra queda acentuada de produtividade após ~50 horas semanais.
Stanford Economics Department.
– CNBC / Stanford Study (2019) – matéria jornalística baseada diretamente na pesquisa de Stanford, amplamente usada como fonte secundária acessível.
“Stanford study: Working longer hours doesn’t make you more productive”.
– OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development) – relatórios comparativos internacionais sobre horas trabalhadas e produtividade por país, mostrando correlação negativa entre excesso de horas e eficiência.
OECD Employment Outlook.
– WHO & ILO (2021) – relatório conjunto “Long working hours and health”, associando jornadas prolongadas a aumento de risco cardiovascular, AVC e mortalidade.
World Health Organization / International Labour Organization.
– Harvard Business Review – diversos artigos sobre fadiga cognitiva, tomada de decisão e o mito da produtividade baseada em horas, com foco em trabalho intelectual.
Ex.: “The Research Is Clear: Long Hours Backfire”.
– Time Magazine (2024) – reportagens recentes sobre os efeitos neurológicos do excesso de trabalho, com base em estudos de neuroimagem e saúde ocupacional.
“Working Too Much Can Change Your Brain”.
– Purdue University – Daniels School of Business – análises sobre custos ocultos das longas jornadas e impacto no desempenho sustentável.
“The Hidden Cost of Long Work Hours”.